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Crítica//Título em Suspensão

 Nityama Macrini

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A solidão passa devagar

Isabella Andrade*

A apresentação Título em Suspensão, de Eduardo Fukushima, despertou-me sensações opostas no primeiro dia do MID. Se por um lado me vi incomodada com o distanciamento que a coreografia lenta, mínima e experimental poderia causar no público, por outro, vi boa parte dos espectadores prestar atenção de maneira fixa e ativa. O solo incomoda. É repetitivo, investe em um estado de não dança e mínimo movimento.

A ideia por trás da coreografia inusitada parece ser uma completa solidão. O figurino lembra um homem de rua e, no palco, Fukushima mostra a lentidão dos que vivem entre dias igualmente lentos. Nesse ponto, a apresentação me toca. Sinto-me momentaneamente imersa no abandono do palco, nos rolamentos repetitivos e quase performáticos de um homem só.

Título em Suspensão se propõe a ser uma dança para os que se sentem esquecidos, derrotados. Consigo acessar o experimento e posso sentir a invisibilidade do homem que se esconde para representar tantos homens no lugar de um. Fukushima prende minha atenção em diversos momentos. E, ao mesmo tempo, perde a relação que construo em momentos de extrema lentidão. E não era essa a intenção? Por que motivo a vagarosidade das coisas nos incomoda tanto?

Constantemente me pergunto se o público também teve a oportunidade de submergir ou se a proposta se manteve distante em excesso. Ainda assim, sei que a criação artística vive dessa maneira. Inúmeros olhares, inúmeras relações. Consigo sentir a solidão proposta. No início da performance, com o bailarino em cena, o público entra, sorri, conversava e se movimenta como se nada ou ninguém estivesse presente.

Ao fim da coreografia, levantamos um a um para sair do galpão. Lentamente, desistimos de observar a completa falta de novidade. No palco, um homem sentado observa com estranha fixação a pedra que acabara de cuspir. O público, já cansado de manter o olhar disposto, deixa de observar.  Logo, o performer se mostra tão invisível quanto os homens que busca retratar. A criação tem dessas coisas.

* Isabella de Andrade é jornalista, atriz e escritora. Graduada em Comunicação Social e Artes Cênicas pela Universidade de Brasília, foi repórter de cultura por três anos no Correio Braziliense e arte-educadora no CCBB. Tem dois livros publicados e é idealizadora do projeto cultural www.ociclorama.com.

Banco do Brasil, Embaixada da França no Brasil e Instituto Francês do Brasil 

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